Clínica La Sensitive

Nutrição e perda involuntária de peso

A desnutrição nos idosos geralmente é subdiagnosticada ou subtratada.

DESCRIÇÃO:

A presente revisão e leitura dos artigos e estudos, listados, consiste em um benefício grande na qualidade e aprendizado, proporcionando melhoria, nas condutas médicas, em relação ao atendimento profissional diário e foi realizada, para uma avaliação, pela professora responsável, pela condução e conclusão do módulo Nutrição e Envelhecimento, no curso de formação em pós-graduação em geriatria.

ARTIGOS, AULAS E ESTUDOS UTILIZADOS:

Avaliação Geriátrica Ampla-Sociedade Brasileira de Geriatria

Curso Nacional de Atualização em Geriatria-Manole Educação

Sarcopenia X Dinapenia e Síndrome da Fragilidade- O que há de novo?- Dr.Omar Jaluul

Distúrbios Nutricionais Comuns no idoso e perda involuntária de peso-Dra.Olga Almeida

White JV, et al. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2012;36:275-283; J Acad Nutr Diet. 2012;112:730-738.

Estudo Seneca de Groot CP,et al. Clin Geriatr Med.2002;18:699-708.

Estudo Roberts SB, et al. JAMA. 1994;272:1601-1606.

Puliseby S, et al. In: Morley JE, Thomas DR, eds. Geriatric Nutrition: CRC Press; 2007:1-9.

Bernstein M, et al. J Acad Nutr Diet. 2012;112:1255-1277.

Hammond K. In: Krause\’s Food and Terapia Nutricional.12 ed: Elsevier; 2008:383-410

Kvamme JM, et al. J Epidemiol Community Health. 2012;66:611-617

JC Moriguti – Involuntary Weight Loss in Elderly Individuals: Assessment and Treatment. São Paulo Med J 2001; 119(2): 72-7

Geriatr Gerontol Int 2016: Review Article: Prevalence of sarcopenia in older Brasilians: A systematic review and meta-analysis

Study J Gerontol A Biol Sci Med Sci.2005 Mar;60(3):324-33.Muscle mass, muscle strength, and muscle fat infiltration as predictors of incident mobility limitations in well-functioning older persons.

Original Study JAMDA 17 (2016) 1136-1141.jornal homepage:www.jamda.com (Enhacing SARC-F: Improving Sarcopenia Screening in the Clinical Practice)
Study FIBRA.

Frailty syndrome in an independente urban population in Brazil (FIBRA study): a cross-sectional populational study Blodgett et al., Rev Clin Gerontol, 2014; Liu et al, Clin Geriatr Med, 2011; Bauer et al., JAMDA, 2011

REVISÃO:

Um tema extremamente importante na geriatria. A perda de peso não intencional nas pessoas mais velhas leva a um grau de morbidade e mortalidade muito grande. A incidência anual da perda involuntária de peso varia entre 8% entre adultos que procuram os serviços médicos até 35% em idosos mais frágeis.

A desnutrição nos idosos geralmente é subdiagnosticada ou subtratada. A maioria dos diagnósticos são feitos, quando os idosos se encontram emagrecidos, com perda funcional ou quando a desnutrição se encontra em um grau de maior gravidade.

Essa incidência varia até 15 % da população geriátrica do ambulatório, 23-62% nos hospitalizados e nos moradores de ILPI até 85%.

Quando vamos estudar a perda de peso é necessário entendemos a importância do peso para os idosos. Classificamos como Risco de Desnutrição, quando ocorre uma perda de peso não intencional de até 5% em um mês ou até 7,5%, em 03 meses, sendo uma condição clínica grave, principalmente, quando a mesma, acontece de forma progressiva nos grandes idosos (acima de 85 anos). Quando ocorre acima de 5%, em um mês ou acima de 7,5%, em 03 meses, Risco de Desnutrição Grave.

A perda de peso nos idosos é um importante fator de risco. A mortalidade acontece entre 09-38%, entre 1 a 2,5anos, após a instalação da perda involuntária, sendo considerado, um marcador de morbimortalidade, com desfechos graves, em idosos mais frágeis e que se encontram hospitalizados, com risco de complicações, declínio funcional, maiores taxas de institucionalização e menor qualidade de vida.

Analisando alguns trabalhos e alguns estudos chega-se à conclusão de que, quando acompanhamos idosos, durante alguns anos, os que apresentam maior perda de peso, em comparação aos estáveis ou até, aqueles idosos que ganham peso, estes apresentam um aumento na taxa de mortalidade, sendo um paradoxo ( perder peso melhora a hipertensão arterial, controla os níveis glicêmicos, controle dor em osteoartroses, reduz a síndrome metabólica), porém, nos idosos, a perda de peso involuntária, pode ser fator aumentado de desfechos negativos.

A restrição nutricional, nos idosos, que não fazem atividade física, aumenta o risco de maior perda muscular, com evolução para sarcopenia, síndrome da fragilidade e incapacidade.

Entre os fatores que influenciam o estado nutricional dos idosos estão: predisposição genética; alterações fisiológicas do envelhecimento (menor salivação, menor motilidade intestinal, alteração do conteúdo gástrico). Os mais relevantes destacam-se: Patologias Crônicas Sintomáticas (ICC; DPOC; Dor Crônica; Polifarmácia); Incapacidade Física (dificuldades em relação a compra e armazenamento dos alimentos: modo de preparo, variedade dos alimentos- proteínas, frutas, leguminosas); Distúrbios Neurológicos (Síndromes Demenciais); Distúrbios do Humor (Depressão); Condições Socioeconômicas (proteínas apresentam um maior valor econômico).

Os problemas de saúde associados ao envelhecimento, podem estar relacionados a diversos fatores, sendo necessário que, o profissional da saúde responsável, pelo cuidado, com os idosos, se atentem a vários aspectos: Saúde Bucal e Dentária (parte fundamental no exame clínico geriátrico-patologias como Monilíase e Estomatites- requerem um acompanhamento odontológico adequado); Dificuldades de deglutição (Gastrite; Esofagite); Anorexia do Envelhecimento (menor atividade física e menor aporte calórico); Mudanças das necessidades nutricionais (tomar cuidado com a restrição em idosos); Comportamentos poucos saudáveis (dieta monótona, pouca preferencia alimentar e limitação dos alimentos); Consumo de álcool e tabaco; Falta de conhecimento nutricional (obesidade sarcopênica-maior taxa de gordura e menor massa muscular); Sedentarismo (menor necessidade de aporte).

Em relação a outras limitações que interferem na capacidade nutricional dos idosos se destacam: Incapacidade e dor causadas por Polipatologias descompensadas; Polifarmácia (importante efeitos colaterais dos medicamentos); Dietas Terapêuticas Restritivas ( impostas por profissionais, sem um adequado olhar para com a condição da população idosa, com aumento no número de internações e risco de desnutrição); Distúrbios de mobilidade e incapacidade (planejamento da dieta); Distúrbios Neuropsiquiátricos (demência; depressão-falta de prazer e motivação, lembrar que a cultura brasileira e o social, muitas vezes, se relaciona com a mesa e às refeições); Problemas Sociais e Financeiros (a proteína é mais cara do que os carboidratos); Acesso limitado aos alimentos; Vida em ambiente estranhos (ILPI-troca e mudança nos horários).

Para a identificação do risco de desnutrição e perda de peso, existe a necessidade de uma anamnese, com uma história clínica adequada. Ter cuidado com os fatores de risco. A história alimentar é um componente útil na identificação dos riscos. Aventar sobre a necessidade de um diário alimentar ( 3 a 7 dias), observar os alimentos que são consumidos e como são preparados, qual é a retrospectiva e prospectiva alimentar dos idosos, obtendo um questionário sobre a frequência alimentar.

Em relação ao IMC nos idosos, vários estudos mostram que, o IMC ótimo, para a sobrevida em maiores de 70 anos, deveria encontrar-se entre 25 e 30 Kg/m2, sendo o sobrepeso, um efeito protetor, principalmente, nas mulheres. Na fisiologia do envelhecimento o IMC, perde um pouco de parâmetro, em relação a altura dos idosos, e portanto, a antropometria, nas consultas é mandatória.

Entre as causas patológicas e porcentagem de prevalência se destacam: Neoplasias (16-36%); Transtornos Psiquiátricos (9-42%); Doenças Gastrointestinais (6-19%); Doenças Endócrinas (4-11%); Doenças Cardiovasculares (2-9%); Doenças Respiratórias (6%); Infecção Crônica (2-5%); Doenças do tecido conjuntivo (2-4%); Causas Desconhecidas (10-36%).

A consulta médica deve ser ampla e sempre é necessário avaliar as condições sociais, a nutrição formal, avaliação da cavidade oral, reavaliação dos medicamentos. O exame físico é fundamental, sendo necessário, peso, altura, IMC, adequação de próteses, vestuário, outras medidas antropométricas (panturrilha e braço), avaliação da força, funcionalidade, desempenho físico e toda a avaliação dos outros aparelhos.

Os exames complementares como hemograma, provas de atividade inflamatória, colesterol total e frações, albumina (meia vida longa), função renal, eletrólitos, função hepática, glicemia, hormônios tireoidianos, rastreio de neoplasias (sempre direcionado e os marcadores tumorais não devem serem feitos, para rastreio de neoplasias, apenas para acompanhamento de tumores diagnosticados), sendo indicados sempre, como método complementar, a uma adequada história clínica e exame físico geriátrico amplo, com testes de desempenho e funcionalidade, além da classificação e estratificação de todos os idosos de risco.

Entre as intervenções é positivo, minimizar as restrições dietéticas, otimizar a ingestão energética (oferecer alimentos ricos em energia), fracionar as refeições e respeitar as preferências, avaliar a consistência alimentar (em relação a saúde bucal e capacidade de mastigação e deglutição), usar suplementos alimentares em dose e momentos oportunos (uma arma poderosa em relação a perda de peso), evitar alimentar-se sozinho, quando possível, melhorar o tempero dos alimentos e sempre estimular a pratica de atividade física regular. Quanto aos anorexígenos, os mesmos apresentam baixa eficácia e grandes efeitos colaterais.

A perda involuntária de mais de 5%, durante o ano, do peso habitual, deve ser investigada sendo sinal de mau prognostico. O peso médio dos idosos é menor do que o dos adultos. Na população idosa, os dados observacionais mostram que, os índices de massa corpórea mais vantajosos, estão associados aos melhores desfechos. A perda de peso é multifatorial: baixa ingesta, perda de apetite, sarcopenia, causas sociais, psicológicas ou clínicas (aparelho digestório, neoplasias, doenças neuropsiquiátricas). A avaliação do paciente deve ser ampla e os exames sofisticados somente devem serem feitos após anamnese e exame físico.

Em 1989, Irwin Rosenberg, propôs o termo “Sarcopenia” (sarx = carne e penia= pobreza), para descrever a diminuição da massa muscular, em decorrência ao avanço da idade. Em 2010 o Conselho Europeu, defendeu Sarcopenia não apenas como a perda de massa, considerou a perda de massa, associada a perda da força muscular, para definir o termo Sarcopenia. Com o envelhecimento saudável, ocorre uma redução da massa muscular e infiltração por tecido adiposo, perda de força e função do músculo.

Na última década (2009), foi publicado o novo Consenso Europeu, com a definição de Sarcopenia, sendo considerada uma doença muscular (CID próprio). A massa muscular é difícil de ser mensurada na prática clínica, sendo o papel da força, um critério muito relevante e, contudo, a presença isolada de perda de função muscular, pode ser critério para diagnostico provável, de sarcopenia, onde deve ser tratada precocemente, reduzindo os desfechos negativos.

Em relação a prevalência da sarcopenia, nos idosos, a mesma é difícil de ser estimada, em relação a algumas variantes: definição (perda de massa e/ou força muscular); variabilidade de métodos para a mensuração da massa magra nos idosos e as populações estudadas serem heterogêneas: variando entre: 1-29% na comunidade geral; 14-33% em instituições; 10% em unidades de agudos.

Uma metanálise, publicada em 2016, analisou a prevalência de sarcopenia, em idosos brasileiros. Um trabalho que envolveu 31 estudos, com 9.416 participantes, obtendo uma prevalência de sarcopenia na população geral, em torno de 17%, da população brasileira (13-22), sendo idosos com baixa massa, entre 16% (12-23) e associação entre baixa massa e redução de funcionalidade, entre 17% ( 9-31). Existe uma estimativa de crescimento exponencial no Brasil, com a estimativa de 30.000.000 de idosos e destes, 5.100.000 podem ser sarcopênicos, se medidas precoces de diagnósticos e terapêuticas adequadas não forem adequadamente tomadas.

Em relação a fisiopatologia a Sarcopenia trata-se de uma doença multifatorial: incluindo Alterações relacionadas com a idade (disfunções mitocondriais, apoptose, alterações hormonais do envelhecimento); Alterações Endócrinas (resistência insulínica, hormônio do crescimento, corticosteroides, alterações tireoidianas); Doenças Neurodegenerativas; Nutrição Inadequada e Má absorção (redução do aporte proteico); Caquexia (neoplasias, ICC, DOPO); Desuso de musculatura (inatividade física e imobilidade).

As consequências são a redução do gasto energético total ou basal (aumento da resistência insulínica e redução da atividade aeróbica), redução da força e potência muscular, dificuldade em relação ao equilíbrio estático e dinâmico (aumento de quedas e fraturas), prejuízo nas atividades de vida diárias (perda de funcionalidade e aumento da mortalidade).

Um outro estudo publicado em 2005, envolve 3.075 participantes, com idade média de 73,5 anos, foram submetidos a TC para avaliação de massa muscular e infiltração de gordura no musculo e dinamometria de extensores de joelho, para avaliação da força muscular, mostrando a incidência de redução de mobilidade de 31,8%, em mulheres e 22% em homens. Ao calcular-se o risco relativo da massa muscular isolada estar associada, ao desfecho de redução, da mobilidade, foram encontrados risco relativo de 1,68 (intervalo de confiança de 1,23-2,31). Quando controlaram este risco relativo associado a força e redução de gordura, o risco relativo reduziu, para 1,34 (intervalo de 0,95-1,88), deixando de ser estatisticamente, significativo, mostrando que, a redução isolada da massa muscular não está associada a desfechos negativos.

Posteriormente, várias evidências mostraram que, massa, força e potência do músculo não é uma relação linear. Alguns trabalhos mostram que, treinos de resistência aumentam a força, sem aumento de massa muscular, idosos com repouso prolongado (hospitalizados por além, de 04 semanas), tem perda de força maior do que de massa e quando tentou-se suplementar, com andrógenos e hormônios do crescimento, se aumenta a massa e não a força.
Em 2008, Clark e Manini, propuserem uma nova definição, em relação a perda de força e massa muscular, definindo Sarcopenia, como a perda da massa muscular e Dinapenia, todo um processo fisiopatológico, envolvendo o músculo e as alterações neuromusculares (como redução de drive e excitabilidade de reflexo supra espinhal), que contribuem para a perda de funcionalidade dos idosos.

A Sarcopenia no idoso, pode ser suspeitada, em pacientes que apresentam instabilidade de marcha, fraqueza e lentidão para andar, aumento do número de quedas, perda de peso ou massa muscular, dificuldades em levantar da cadeira e dificuldade para subir escadas, evoluindo para dependência, para atividades diárias.

O rastreio pode ser feito com uma ferramenta publicada entre 2013, por Morley e colaboradores- SARC-F. Uma ferramenta de baixa sensibilidade e alta especificidade, identificando os casos de sarcopenia grave. Permite avaliação da força, capacidade de deambulação, transferência, subir escadas e quedas, onde a pontuação maior ou igual a 4, pode ser preditivo de sarcopenia (recomendada pelo consenso europeu de sarcopenia, para rastreio de consultórios).

O trabalho “JANDA”, foi publicado em 2016, validando no Brasil, a versão traduzida da SARC-F, mostrando que, a SARC-F isolada, na população brasileira, não se mostrou adequada, como uma ferramenta de triagem, porém, associando, com a medida da circunferência da panturrilha, houve uma melhora significativa, no desempenho da ferramenta, para rastreio da condição.

Para o diagnóstico de sarcopenia, no último consenso, ocorreram algumas modificações, propondo que, a presença de baixa força muscular (não necessariamente, diminuição da massa muscular), encontra-se como critério suficiente, para Sarcopenia Provável, permitindo a investigação, das causas e intervenção precoce. Outro critério é a somatória da força, com a quantidade e qualidade muscular, quando existe baixa massa, associado a baixa força muscular, confirma-se o diagnóstico de Sarcopenia (Confirmada). Ocorrendo a redução, no desempenho físico, podemos classificar como Sarcopenia Grave.

Na prática clínica a avaliação da força muscular pode ser feita de 02 maneiras: Pela avaliação da força de preensão palmar, que pode ser feita, em consultório, com o dinamômetro de mão. Os pontos de corte são 27 Kg para homens e 16Kg para mulheres. Se abaixo dos valores de corte, sugere-se baixa força muscular. São 03 medidas, com intervalo de 01 minuto, entre elas, paciente em posição adequada, sentado e com o dorso apoiado na cadeira, braço fletido a 90 graus, medindo a maior força de preensão, em 06 segundos. Outro método seria o Teste de Levantar e Sentar da Cadeira 05 vezes, usando uma cadeira sem braços de apoio. O teste consiste em avaliar se o paciente consegue sentar e levantar da cadeira, sem o apoio dos braços, com os mesmos, em posição cruzada. Se o paciente não conseguir tem-se o diagnóstico de sarcopenia provável e se, o mesmo conseguir deve-se cronometrar o tempo (em 05 vezes), sendo o ponto de corte de 15 segundos. Valores abaixo do ponto de corte, também sugere sarcopenia provável.

A mensuração da massa muscular para a confirmação do diagnóstico de sarcopenia necessita de exames complementares: Entre eles podem serem feitos: Absorciometria de Raio-X de Dupla-Energia (avaliação da composição corporal total, calculando a massa apendicular e por meio de fórmulas, estima-se a massa magra do paciente, com difícil disponibilidade); Bioimpedância Elétrica (2 eletrodos em mãos e pés e a partir de correntes elétricas, imperceptíveis, são calculados, a reactância e resistência, estimando a massa magra, sendo contraindicado, em pacientes com marcapasso e anasarca); Antropometria (muito comum na prática clínica, medida da circunferência da panturrilha, sendo o ponto de corte de 31cm); TC e RNM (métodos de elevado custo e usados em pesquisa, por serem padrão-ouro).

A avaliação do desempenho físico, para classificação da sarcopenia como grave, pode ser feita a partir de alguns testes na prática clínica e reconhecidos por consensos: Teste de Velocidade de Marcha ( paciente deve andar a uma distância de 04 metros, em velocidade habitual e cronometrar o tempo, sendo o ponto de corte de 0,8m/s, onde abaixo, considera-se sarcopenia grave) ; TUG Teste-“Timed get -up and go test” (paciente sentado em uma cadeira com braços, deve levantar da cadeira, percorrer uma distância de 03 metros, retornar e sentar na cadeira, sendo o ponto de corte de 20 segundos, sendo valores acima ou iguais a 20 segundos, classificam os pacientes, como baixo desempenho); SPPB; Teste de caminhada de 400 metros.

O tratamento da Sarcopenia deve ser realizado e consistir em intervenção farmacológica e não-farmacológica. As medidas não farmacológicas apresentam maior evidência de benefício e incluem nutrição e atividade física.

Com relação a atividade física a melhor forma seria, o treino físico resistido (halteres, pesos livres, bandas elásticas, treino funcional- musculação ou pilates), supervisionado por profissional.

Em relação a dieta alimentar recomenda-se a ingesta adequada da dieta proteico-calórica; suplementação de proteínas de alto peso molecular e valor biológico (leucina e hidroximetilbutirato- HMB-2g/dia); suplementação de ácidos graxos (Ômega 3, na dose de 2-3g/dia, principalmente em mulheres sarcopênicas, tendo evidência na melhora da massa, força e qualidade muscular); suplementação de Vitamina D (em deficiência dosada, com exame sérico, abaixo de 20ng/mL, com ataque e dose de manutenção de 800-1000UI/dia). A suplementação de proteínas deve seguir a indicação de 1-1.2g/Kg/ dia, de proteína nos idosos saudáveis; nos que praticam atividade física, acima de 1.2 g/kg/dia; nos doentes crônicos entre 1.2-1.5 g/Kg/dia (restrição apenas em pré-diálise), devido a diminuição no consumo de proteínas, em relação ao envelhecimento, menor capacidade do uso da proteína disponível e maior necessidade proteica. Quanto a reposição de vitaminas e oligovitaminas, deve-se ter um cuidado na prescrição adequada e momento oportuno. Podem ser repostas, em doses adequadas, geralmente utilizadas em quadros de carência e necessidade de reposição.

O tratamento farmacológico não é terapia de primeira linha, nem de recomendação. Existem evidências insuficientes, para se recomendar o tratamento, com hormônios anabolizantes, como a testosterona e os moduladores seletivos, dos receptores de andrógenos. Assim como, hormônios de crescimento, anamorelina, anticorpos contra miostatina ou actina, perindopril, espindolol. Em relação a Testosterona, se o paciente, tiver Sarcopenia, com deficiência de Testosterona e Hipogonadismo, pode ser considerada, a necessidade de suplementação, sendo atentado, para os níveis de PSA, risco cardiovascular e níveis de hematócrito.

A Sarcopenia e a Síndrome da Fragilidade são visões diferentes de um mesmo fenômeno, onde a sarcopenia relaciona-se às importantes alterações musculares e a síndrome da fragilidade, a uma doença sistêmica. Não deve ser confundida, com dependência física e incapacidade. A Síndrome da Fragilidade é um conceito que envolve, mecanismos fisiopatológicos e a dependência física e incapacidade, a um conceito de funcionalidade. O idoso que é dependente para as atividades de vida diária e que tem uma incapacidade grave, certamente é frágil, porém, o idoso frágil, nem sempre é incapaz e dependente, apesar do risco de evoluir, com perda de funcionalidade e dependência progressivas.
O conceito fisiopatológico, de Síndrome da Fragilidade, foi proposto pela Fried e colaboradores em 2001, como um estado de vulnerabilidade fisiológica, relacionada à idade, resultante de reservas homeostáticas multissistêmicas, comprometidas, e uma capacidade reduzida, do organismo de resistir aos estressores.

Através de fatores genéticos, ambientais e mecanismos epigenéticos, ocorre um dano celular e molecular cumulativo, ao longo da vida, que reduz a reserva fisiológica acometendo os sistemas (musculares, cerebral, respiratório, cardíaco, imune, renal). Um paciente que tem uma baixa reserva fisiológica, quando submetido, a um baixo aporte proteico e a uma inatividade física, pode desenvolver a síndrome da fragilidade, trazendo impactos, que associado, a fatores estressores, proporcionam quedas, delírios, dependência, hospitalizações, institucionalizações e morte. E a cada evento estressor, ocorre uma diminuição ainda maior da reserva e, uma perda da funcionalidade, aumentando a fragilidade.

No consenso de 2013 houve uma redefinição de que Síndrome da Fragilidade é uma condição médica, com múltiplas causas e contribuintes, caracterizada, pela diminuição da força, resistência e função fisiológicas, envolvendo muitos sistemas, que aumenta a vulnerabilidade, a um estado de maior dependência e com elevado risco de morte.

Em relação às consequências da síndrome se destacam: Quedas, Incapacidades, Dependência, Institucionalização, Hospitalização e tempo mais prolongados, Morte.

O diagnóstico pode ser realizado através de algumas ferramentas: Fenótipo ( 5 variáveis: redução da força de preensão palmar- abaixo do percentil 20, corrigido pelo gênero e IMC; redução da velocidade de marcha- distância de 4,6 metros corrigidos, pelo gênero e estatura; perda de peso- acima de 4,5 Kg referidos ou perda de 5% em 01 ano; sensação de exaustão-fadiga -pela aplicação do questionário CES-D ou resposta positiva a uma das 2 perguntas: esforço maior para atividades ou interrupção de alguma atividade por fadiga ou exaustão; atividade física abaixo do percentil 20, da população-questionário Minnesota) -0 critério: Não-frágil, 1-2 critérios: Pré-Frágil, 3 ou +: Frágil; Escala Frail ( 5 variáveis: fadiga; resistência-capacidade de subir um lance de escadas; deambulação-capacidade de andar um quarteirão; comorbidades -acima ou igual a 5 patologias; perda de peso- acima de 5%-0 critério: Não-frágil, 1-2 critérios: Pré-Frágil, 3 ou +: Frágil); Escala SOF (3 variáveis: perda de peso -intencional ou não, em pelo menos 5%, em 2 anos; incapacidade de levantar da cadeira, 5 vezes- sem ajuda das mãos; resposta “não” à pergunta: Você se sente cheio de energia?- 0 critério: Não-frágil, 1 critério: Pré-Frágil, 2 ou +: Frágil); Índice de Fragilidade; VES-13.

Na mesma relação que a sarcopenia, a síndrome da fragilidade também apresenta, uma prevalência difícil de ser estimada, devido as diferenças populacionais, das variadas definições, da heterogeneidade das amostras, estimando entre 4-59% da população idosa geral, sendo 9,9% de frágeis e de 44,2% de pré-frágeis. A prevalência aumenta, com a idade, sendo 4% em idosos entre 65-69 anos e 26% em idosos, acima de 85 anos.
O estudo FIBRA é um estudo mais relevante em termos de avaliação de prevalência de síndrome da fragilidade, no Brasil, sendo epidemiológico transversal, multidisciplinar e multicêntrico, iniciado em 2006, com os objetivos de investigar os aspectos epidemiológicos, prevalência, aspectos físicos e biológicos da fragilidade, sendo 04 polos coordenadores ( FMRP; UFMG; UERJ; UNICAMP), enfatizando que, a prevalência de idosos frágeis no Brasil, seria em torno de 8% e de pré-frágeis 52,7% (muito significativo, sendo que uma intervenção terapêutica, poderia reduzir o risco).

O padrão-ouro para a avaliação e tratamento da Síndrome da Fragilidade é a Avaliação Geriátrica Ampla- AGA (medula espinhal do geriatra). É necessária uma Avaliação Multidimensional: Além de avaliar as Condições Médicas (comorbidades, polifarmácia, avaliação neurossensorial, avaliação nutricional), avaliar a Capacidade Funcional (equilíbrio, mobilidade, risco de quedas, nível de dependência nas atividades de vida diária), Saúde Mental (função cognitiva e fatores emocionais), Condição Social (suporte familiar e social e condições ambientais), com o objetivo de um diagnóstico global (riscos e vulnerabilidades), sendo desenvolvido após, um planejamento terapêutico, que envolve, uma equipe multiprofissional (fisioterapia, educador físico, nutricionista, enfermeiro, terapia ocupacional, assistência social).

O planejamento terapêutico, consiste primordialmente, em intervenções não-farmacológicas, como nutrição (alimentação adequada) e atividade física resistida e combinada. Em relação a nutrição, dieta hiperprotéica (lipídeos, carboidratos, proteínas de alto valor biológico, distribuição em todas as refeições e suplementação). A quantidade de proteínas varia também de 1,0-1.2g/Kg/dia (idosos saudáveis); 1.2-1.5g/Kg/dia (portadores de doenças crônicas, exceto, pré-dialíticos); 2g/Kg/dia, em pacientes com doenças graves ou desnutridos (equivale a 25 -30 gramas de proteínas por refeição- equivale a 2,5-3,0g de leucina). Em relação a atividade física, além, do treino resistido, associar os exercícios aeróbicos-150 minutos, por semana (30 minutos, por dia, 05 vezes, por semana). A ingestão em pacientes, em atividade física, de proteínas, deve ser em torno de 1,2g Kg/dia. Associar suplemento proteico de 20 gramas, após as atividades físicas (na primeira hora) e estimular outras atividades funcionais (treino funcional, atividades que melhorem o equilíbrio).

Em conclusão a Sarcopenia é um conceito em transição, onde a força e a função muscular apresentam um papel, relevante, comparado, a massa muscular isolada. A síndrome da fragilidade é o mesmo fenômeno, com um olhar ampliado, envolvendo múltiplos sistemas, além, dos sistemas musculares, que estão comprometidos. Ambas apresentam alta prevalência, no Brasil, múltiplos fatores associados, causas genéticas e adquiridas, causas externas, necessitando o Geriatra, buscar o diagnóstico e a intervenção precoce, principalmente, um aporte nutricional adequado e a sensibilização para as atividades físicas continuadas e regulares, reduzindo, o prejuízo funcional e incapacidades, sendo o tratamento multidisciplinar.